segunda-feira, 31 de março de 2014

SIM... as cotas são raciais

Após alguns vários anos sem postar nada, resolvi retomar o blog. Agora, com uma outra toada... mais voltada para as questões sociais que envolvem nosso dia a dia. 

Minha cabeça mudou, minhas concepções sobre a vida também. Talvez por uma inquietação íntima de estudar e entender um pouco mais sobre minhas raízes e o meu papel nesse mundão de meu Deus. Gostaria de expor minha humilde opinião neste espaço.... e discuti-las com vcs... Assim, acredito que terei a oportunidade de crescer e aprender. 

E para estrear esta nova fase do Cabelo Pixaim, vou "colocar pra jogo" um texto ótimo que recebi que um rapaz que trabalhou comigo. Vinicius, advogado inteligente e que tem uma bela história de vida.... 


"Sim, as cotas são raciais.

Bastou o Projeto de Lei 6.738/13 ser aprovado na Câmara dos Deputados, para reiniciar mais uma vez a acolorada discussão sobre as cotas raciais. Não é surpresa que a "política afirmativa" tenha uma certa natureza eleitoreira, mas... 

AH! Vinícius, no Brasil não tem preconceito, aqui é um país multicultural, todos têm um pé na senzala, e até me disseram que temos um "tio-avô" que era moreninho.

Pois é, se nunca sentiu preconceito racial vivendo neste país. Não é negro! Minha pobre mãe, não sei por que sempre ensinou-me que eu era "café com leite", até gostava disso, era diferente, ninguém era "café com leite", somente eu. Só que o meu doce mundo sucumbiu ao iniciar a vida escolar, lá começaram as primeiras diferenças, e naquele momento, descubri que não existia café com leite, mas sim, os brancos e uns negros. Como pessoal diz por ai: Passou das 6, é boa noite. 

Pois é: bastou a primeira infantil briga para escutar o que escutaria para sempre: " Seu PRETO....". Acredite, quando abrem a boca para falar "preto" nunca se restringem a 5 letras, sempre acompanham com um fedido ou macado (e pior, não há regra que impeça o uso concomitante).

No início, sofre-se muito, ficamos com raiva, dá até vontade de não querer ser negro (Sim, eu entendo o Michael!!) Me fale, que negro nunca teve vontade de ser branco, só para não ter que escutar certas palavrinhas ? 

Começamos a pensar que não existe café com leite, mas sim Pretos Macacos e Fedidos e Aulas de História. 

AH!! as aulas de História!!! 

Lembro-me como se fosse hoje, passei todo o meu ensino fundamental esperando falarem sobre os negros, queria mostrar a eles que não éramos macacos. Meu olhos brilhavam, falavam da inteligência dos Gregos (brancos), das grandes conquistas dos Romanos (brancos), das expertise dos Ingleses com sua revolução (brancos), da iluminação dos franceses (brancos), da camaradagem dos soviéticos (brancos), das treze colônias americanas (brancos) e quando sobrou um tempinho, falaram de uns "primitivos" que vendiam seus irmãos como escravos para trabalharem na lavoura do progresso, mas nunca comentaram sobre os Bantus, Etiópia, Lanceiros Negros, Alforriados da Guerra do Paraguai, Jesse Owens, Panteras Negras...

Argh!! Para piorar, a professora de Ciências comentava de um tal Darwin que afirmava categoricamente que os seres humanos eram a evolução de um parente próximo do macaco. PRONTO, ELES ESTAVAM CERTOS.

Tudo bem, crescemos um pouco mais, percebemos que o tal do parente próximo nem é tão próximo assim, até que chega a formatura do ensino fundamental, vai-se alegramente comprar o primeiro terno, e a primeira pergunta que a vendedora faz é: É PARA QUÊ ? PARA VIGIAR CARROS ? 

Depois disso, como num passe de mágicas, aprendemos: se quer ir ao shopping comprar algo, vá muito bem vestido, se não, sempre irá escutar: Não posso atendê-lo, já estou com outro cliente, ou então, caso queira comprar um terno: é para vigiar carros ?

A vida vai passando, chega a hora de escolher a profissão. Nessa hora pensei, me dei bem: preto, alto, magro, canhoto e brasileiro ? Pronto... vou ser jogador de futbol... pois é, estava tudo certo, mas o cara lá de cima não me agraciou com "aquela" habilidade.

AH!, vamos para música então... Humm... não, não, não... melhor não!!!

Pois é, o jeito foi ir para mundo dos brancos, ou seja: Estudar. Mas já reparou quantos médicos, diplomatas, engenheiros ou executivos são negros ? Façamos uma experiência: vá ao google imagens e digite: Médico, depois tente algo como"Juíz" e por fim coloque "gari". Observará que neste país, branco tem carreira, preto tem emprego.

Por falar em médico, só conheci um Médico negro em toda minha vida, se chamava Dr. Francisco, e por incrível que pareça, foi o primeiro negro chamado Francisco que não era "Chico" e veja que Dr. Chico nem seria cacofonia.

Calma! há ainda as sonhadas férias. Enquantos uns passam longas horas nas salas de embarque (acham isso ruim?) nós, ao menos umas vez, passamos na sala de averiguação por tráfico internacional de drogas com nossos irmãos (negros) cubanos, caribenhos, africanos e colombianos. 

Querendo ou não, vivemos com o preconceito racial desde que iniciamos nossa vida e, infelizmente, independente de onde eu esteja, continuarei sofrendo, bem provável que os meus filhos também e até meus netos, caso continuemos a encarar o problema como ignorância pessoal e não realidade social.

Bem provável, que se o número de negros no mercado de trabalho fosse proporcional ao de brancos, todo mundo saberia que ser negro é normal: não tem que ser necessariamente preto, macaco, fedido, tchão, traficante, peladeiro ou cantor, mas podem sim, brincar com todo mundo, fazer turismo, comprar roupas boas, e ter uma "carreira".

E eu ?

Bem, poderia ter sido um inocente café com leite. "


Texto de Vinícius Nanini



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